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Aids aumenta entre homens gays de 20 a 24 anos

Leonardo, 23 anos, descobriu que está com Aids / Foto: Nico Nemer/DiárioSP

Apesar de matar menos, a doença voltou a crescer e a preocupar. DIÁRIO ouviu essa população de risco

Por: Fernando Granato
fernando.granato@diariosp.com.br

Leonardo tem 23 anos e é garoto de programa. Faz sexo pago com homens e mulheres e descobriu há pouco tempo que está com Aids. “No trabalho uso camisinha, mas a lazer não”, admitiu ele, quando recebia os primeiros medicamentos para seu tratamento, no Centro de Referência em Aids da Secretaria de Estado da Saúde, na Zona Sul da capital paulista.

“Hoje a Aids assusta menos do que no passado, por isso não me cuidei”, admitiu Leonardo. “Minha geração praticamente não viu ninguém morrer dessa doença. Ela virou uma coisa crônica.”

O caso desse garoto de programa não é isolado. Levantamento feito pela Secretaria Estadual de Saúde mostrou que as ocorrências de Aids entre jovens gays de São Paulo aumentaram 121% desde 2010, passando de 1,6 mil casos para 3,7 mil em 2015.

Já a taxa de mortalidade da doença diminuiu sensivelmente, em função dos avanços no tratamento com o coquetel antiaids. Em 2015, a taxa de mortalidade pela enfermidade foi de 6 por 100 mil habitantes, 23,5% a menos do que em 2006, Ainda assim, em 2015, segundo dados do governo estadual, morreram 2,5 mil pessoas de Aids em todo estado, numa média de sete óbitos por dia.

Apesar de estar doente, Leonardo não parou de fazer programas. “Isso não vai me impedir de trabalhar”, afirmou. “Até porque a maioria dos homens que me contratam já esta infectada. Acho isso normal. A Aids hoje é como um resfriado. Basta tomar o remédio e vamos tocando a vida para frente. Não é mais pavor como antes.”

A idade de Leonardo é a que mais apresentou novos casos de infecção por HIV em São Paulo. Segundo o levantamento da pasta da Saúde, as taxas de detecção do virus subiram de 30,8 para 79,4 casos por 100 mil habitantes no período de 2010 a 2015.

Na sociedade como um todo, essa taxa de detecção cresceu 4,2 vezes no mesmo período, passando de 4,2 para 17,6 casos por 100 mil habitantes em cinco anos.

Desde 1980, quando começou a ser feito o levantamento, o estado de São Paulo registrou 251 mil casos de Aids. “Confesso que não conheço ninguém que tenha morrido dessa doença”, afirmou o garoto de programa Leonardo. “Eu, pessoalmente, tenho mais medo de pegar sífilis e gonorreia, doenças venéreas que vão me impedir de trabalhar e me manter.”

Toda quarta-feira Leonardo pega o kit de medicamentos. Depois chama um carro pelo Uber e vai para mais um encontro. “A vida segue”, disse. “Não quero parar já.”

Governo promove campanha entre jovens universitários

De olho na população jovem, a Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo adotou uma estratégia de levar testes rápidos para diagnóstico da Aids para as portas das universidades.

No começo do mês de dezembro, cerca de 200 exames foram realizados e mais de 12 mil preservativos distribuídos a essa população de estudantes.

O cronograma da secretaria contemplou a Uninove (Universidade Nove de Julho), campus Vergueiro, Universidade Anhembi Morumi, campus Mooca e FMU (Faculdades Metropolitanas Unidas ), campus Santo Amaro.

Afim de ter participação da própria comunidade estudantil, o programa contou com o auxilio de alunos da área de saúde das três instituições. Essa ação desenvolvida em dezembro constitui-se um piloto de um projeto que será posto em prática ao longo de 2017 e deverá se estender para outras instituições.

Além dessa estratégia, o governo de São Paulo tem promovido mutirões de testagem rápida e HIV em pontos estratégicos da cidade de São Paulo.

Em 1 de dezembro, no Dia Mundial de Luta contra a Aids, o local escolhido foi o Pátio do Colégio, no Centro. Cerca de 700 testes foram oferecidos.

“O acesso à testagem e o diagnóstico precoce contribuem para o tratamento em tempo adequado e, assim, para a qualidade de vida das pessoas com Aids”, disse o secretário de estado de Saúde, David Uip, médico infectologista especializado na doença. “Além disso, se a pessoa tem a doença, pode transmitir.”

Governo vai implantar tratamento pré-exposição a grupos de risco

A Secretaria Estadual de Saúde tem mais uma carta na manga para tentar inibir o avanço da Aids nas populações mais vulneráveis: a Prep (profilaxia pré-exposição do risco).

Além do tratamento para quem já se expôs ao risco de contrair Aids, com a chamada pílula do dia seguinte (na verdade, uma bateria de medicação por vários dias), agora a profilaxia anterior ao contágio poderá ser adotada para profissionais do sexo e jovens gays que praticam sexo sem proteção.

A Prep consiste, basicamente, em comprimidos que impedem a entrada do vírus HIV no DNA das células de defesa.

A informação foi passada pelo coordenador do programa de DST e Aids da secretaria, Artur Kalichman. “Essa e outras estratégias mais criativas estão sendo adotadas para tentar diminuir a  transmissão da Aids nessa faixa etária”, disse.

Ainda segundo o coordenador, a dificuldade de conscientizar jovens está no fato de que a geração de 1990 já nasceu com o tratamento da Aids. “Por isso, não conviveram com a dor das tantas pessoas que morreram com a doença”, afirmou.

Para Julio da Silva, 56, portador do virus desde 2004, que tornou-se voluntário na conscientização de jovens, disse que todas as ações são bem-vindas. “As novas gerações acham que a doença não existe. Recusam preservativos dizendo que a Aids hoje é como um resfriado, mas eu sei que não é. Eu me tornei um morto-vivo quando comecei a usar o coquetel, por intolerância aos medicamentos. Tento explicar isso, mas nem todos entendem.” Julio percorre saunas gays e bares distribuindo camisinhas e falando aos jovens sobre o tema.

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